O Brasil parece um imenso bunraku, que não é palavrão mas o nome
daquele teatro de bonecos japonês em que figuras articuladas, do
tamanho de crianças, são manipuladas por pessoas vestidas de preto. Os
manipuladores estão sempre à vista mas, como estão cobertos de preto
dos pés à cabeça, inclusive o rosto, ficou convencionado que são invisíveis.
O bunraku nasceu em Osaka no século 17 e, a não ser pelo uso de
refletores elétricos, deve ser igual hoje ao que era no seu começo,
inclusive com as mesmas histórias reincidentes, todas passadas no Japão
medieval. Mudam as figuras, mas não muda mais nada. O bunraku
durou até hoje porque suas convenções nunca foram questionadas. As
reincidências do Brasil também dependem deste respeito tácito às
convenções do espetáculo. Ficou combinado que ninguém vê os
manipuladores em cena. No nosso caso, também só mudam os bonecos.
Vi, na mesma noite, partes da gravação da tal aula magna do Éfe
Agá em Brasília — excelente, por sinal, ainda mais levando-se em conta
que tudo aquilo era para explicar o Renan Calheiros — e da entrevista do
Collor ao Casoy. E fiquei pensando que o nosso bunraku tem uma
perversidade que o japonês não tem. Lá a artificialidade do que se vê em
cena é enfatizada. Quanto mais estilizada a apresentação, mais você tem
consciência do que precisou renunciar para aproveitá-la, da sua
cumplicidade no fingimento. No bunraku brasileiro querem que você
acredite na autonomia do boneco. As convenções do espetáculo que você
precisa respeitar são não apenas que os homens de preto não estão ali,
mas que os bonecos fazem diferença. Que poderiam até, se quisessem,
expulsar os manipuladores de cena e nos salvar da sina da eterna
repetição, posto que são homens providenciais.

O bunraku japonês é muito mais honesto.