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O Diabo odeia comer sozinho. Todas as noites recebe pequenos grupos para jantar no que chama
de sua anticobertura, um duplex no último subsolo do Inferno, escolhendo entre as almas
condenadas as mais interessantes e de melhor papo. Os pratos são sempre grelhados e o vinho é
de produção local, mas o principal é que todos se divertem, falando mal de Deus e todo mundo,
apesar de algumas desavenças. A Lucrécia Borgia, por exemplo, já tinha pedido para não ser
colocada perto da Eva Braun, pois não agüentava mais as queixas da namorada do Hitler de que
não merece estar no Inferno pois seu único pecado foi amar o homem errado.
Mas, ultimamente, a questão de quem merece e quem não merece estar no Inferno vem sendo
muito discutida. É, aliás, o assunto dominante nos jantares do Diabo, que confessa estar às voltas
com uma verdadeira rebelião de almas que pedem revisão de sentença e perdão retroativo. É o
caso dos que foram mandados para o Inferno por usura, no tempo em que era pecado.
E - como gosta de lembrar o Diabo, com um sorriso malicioso -, a Igreja ainda não inventara o
Purgatório justamente para acomodar os usurários, pois sem eles não haveria empréstimo a juros,
bancos e sistemas financeiros. Hoje, a usura não só é o que faz o capitalismo rodar como é o que
manda no mundo. E, principalmente, não é mais pecado, pois os juros não são mais uma
abominação aos olhos do Senhor. Até a Igreja tem bancos. E os condenados por usura no Inferno
perguntam se não têm direito à mesma respeitabilidade conquistada pelos banqueiros, que hoje
enriquecem em vida sem o risco das suas almas penarem na morte, e à absolvição. Ou pelo menos
a um upgrade para o Purgatório.
O Diabo não costuma convidar usurários queixosos para a sua mesa, mas não pode prescindir da
presença de Oscar Wilde, um dos seus comensais favoritos, apesar das suas constantes críticas à
comida, à companhia e à ausência de ar condicionado. E Wilde, que foi preso, execrado e
excomungado por homossexualismo, ao ficar sabendo da ordenação de um bispo gay pela igreja
anglicana esta semana, também passou a reivindicar uma imediata revisão do seu caso e
transferência para o céu. "Nada contra você, D", diz Wilde, "mas aposto que o vinho lá é melhor".
Não adianta o Diabo argumentar que nem ele nem Deus são senhores dos tempos, que mudam, ou
da justiça divina, que não tem corregedoria. Wilde só promete epigramas cada vez mais pesados,
mas a gritaria dos indignados do Inferno aumenta.

1 comentários:
Impagável!!!
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